30/11/2010

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
             Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa, - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNADO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006

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28/11/2010

AZEVICHE E MARFIM

Na noite negra
despontam os dentes brancos
da aurora

Jorge de Sousa Braga

com a devida vénia, de FOGO SOBRE FOGO, Fenda Edições, Lda., 1998

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17/11/2010

ANOITECER EM OUTUBRO

A noite cai, chove manso lá fora
      meu gato dorme
             enrodilhado
                      na cadeira

Num dia qualquer
             não existirá mais
             nenhum de nós dois
para ouvir
             nesta sala
a chuva que eventualmente caia
             sobre as calçadas da rua Duvivier

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

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13/11/2010

Jacob e o Anjo

          «First we feel, then we fall»

                    James Joyce


Há uma idade em que nos conhecemos
presos às paredes, cambaleantes
diante da noite sem fim

O menor movimento avizinha o fantasma
no escuro um de nós pode morrer
desces tu ou subo eu os degraus de uma lenda
um círculo interdito sobre a terra

Aperto contra ti a infelicidade dos meus braços
a navalha não do jogo, mas do rito
Tu porém inacessível
ardes entre a dupla folha
de ouro

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro 2009

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07/11/2010

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um  funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-lo envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado  dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga  amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só


António Ramos Rosa

com a devida vénia, in O POETA NA RUA, Selecção e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho 2005

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01/11/2010

À ENTRADA DA NOITE

Fogem agora, os olhos; fogem
da luz latindo.
Estão doentes, ou velhos, coitados,
defendem-se do que mais amam.
Tenho tanto  que lhes agradecer:
as nuvens, as areias, as gaivotas,
a cor pueril dos pêssegos,
o peito espreitando entre o linho
da camisa, a friorenta
claridade de abril, o silêncio
branco sem costura, as pequenas
maçãs verdes de Cézanne, o mar.
Olhos onde a luz tinha morada,
agora inseguros, tropeçando
no próprio ar.

Eugénio de Andrade

com a devida vénia, de Os lugares do lume, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Setembro, 1998

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